Reflexão sobre Reflexão

Terrível o pensar.
Eu penso tanto
E me canso tanto com meu pensamento
Que as vezes penso em não pensar jamais. Mas isto requer ser bem pensado.
Pois se penso demais
Acabo despensando tudo que pensava antes
E se não penso
Fico pensando nisso o tempo todo.

(Millôr Fernandes)


Terça-feira, Setembro 02, 2003


Não seria bom se pudéssemos ser como os bichos que hibernam?
Eu, por vezes, queria ser um urso. Dizem que eles dormem por meses. Acordam na estação deles, no tempo em que precisam estar acordados.
Quem dera nós tivéssemos também uma caverna, para nos refugiarmos em nosso inverno interior... Um lugar quente, quando o restante do mundo estivesse frio. Quem dera pudéssemos nos deitar no início do gelo e levantar com as flores da primavera...
Talvez acordássemos com muita fome, porém mais magros e bem dispostos. O sono muda a gente. O silêncio muda a gente.
Não é depois de um carnaval cheio de barulho que renascemos novos. É depois de uma noite de sono.
As grandes mudanças se dão assim, na calmaria, no silêncio, quando não contam com ela, quando não a desejam, talvez.
Eu, ainda assim, espero. Mas vou esperar, também, na calma.
Dentro de mim um vendaval derruba o que não presta. Uma mudança enorme me faz ser outra diante do espelho. As vezes, temo não me reconhecer. Outras vezes, porém, temo reconhecer-me a mesma de sempre. Uma mudança que derruba o que não tinha força, leva ao chão as estruturas que levantei sobre areia movediça.
Mas enfim, não há alardes. Há intimidade, e ela me pertence, agora.
Esse blog está acabando. Bem agora que ele chegou ao segundo ano. Não é fácil, quem tem blog sabe. A gente é meio doente. A gente é muito doente. A gente não pensa mais como antes. Não se surpreende diante de algo e daí pensa em falar com alguém. Pensamos em postar a respeito disso. Não nos alegramos com os insights que nos arrebatam, por eles próprios, mas sim pelos posts que eles irão gerar: "Preciso postar isso", a nossa voz interior diz, a cada por-do-sol que assistimos. "Como ainda não postei aquilo?" nos exclamamos diante de descobertas inéditas. E os pensamentos que a todos vem em forma de palavras soltas e informais, a nós, doentes, já vêm em forma de poesia, com as vírgulas, as entonações, e os links devidos, enquanto pegamos um ônibus, enquanto dirigimos, enquanto tomamos um copo d'água...
Cada vez que nos sentamos diante do blogger, nada mais importa. É um exercício de solidão tão grande e ao mesmo tempo o maior exercício de coletividade. É a contradição pura, é a maior característica da nossa espécie. Quem conseguirá explicar, o que move nossos dedos nas teclas, noites a fio? Não é dinheiro, não é vaidade, não é outra coisa, senão inquietude. Eu, encontrava aqui, no cursor piscando, as respostas a uma uma infinidade de coisas que jorravam de dentro de mim, sem que eu as pudesse conter.
Eu sou inquieta, não me satisfaço, não me sento, não descanso. Quem foi que disse "Nunca me contento com o que vem nos milagres?". Pois sou eu também. Insaciável. Porque a vida nos dá muitas oportunidades para que as desperdicemos. E escrever, talvez seja a maior delas.
Por isso, é duro calar-me. As inquietações continuam, talvez maiores do que antes.
Mas eu vou parar. Porque aqui, de alguma forma, deixo desnudada as questões que me afligem. Deixo-me desnudada diante de estranhos e de íntimos. E sinto frio, agora.
Não mais posts enormes. Não mais exclamações, interrogações. Um ponto só vai ficar por aqui. E dessa vez um ponto final.
Vou para a minha caverna. Vou hibernar. Levo estoque de comida, não se preocupem. Levo alguns filmes e assinei a Veja.
Também levo gente comigo, sim. Gente querida, que não as perco mais. Porém tenho olho mágico. Recorro à bina antes de atender. Observo bem antes de abrir. Não são todos bem-vindos. Tenho as chaves já. E as cópias se existirem, andam comigo.
Sentirei saudades? Não de escrever, que para isso existem os dedos. Sentirei saudades das pessoas que faziam a coletividade. A parte de solidão não há de fazer falta. Porque essa vem comigo.